China mais urbana e rica deve favorecer o crescimento no Brasil

Publicado em 07/01/2019 às 15h59

O Brasil pode ser um dos principais beneficiados pelo crescimento de uma "nova China", mais urbana e rica, na avaliação de economistas que acompanham de perto o comércio internacional.

"É um mercado que não apenas está crescendo, mas demandando produtos que podemos oferecer com grande vantagem comparativa. Isso tende a se intensificar", diz o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Marcello Estevão. Para ele, que esteve no encontro do G-20 entre 30 de novembro e 1º de dezembro, em Buenos Aires, a China passa por uma etapa normal de desaceleração.

Classe média - "Não vejo crise brutal na economia chinesa. Junto com a Índia, são quase 3 bilhões de pessoas entrando para a classe média, com a atividade crescendo 6%, 7% ao ano nos dois países. Não à toa a China é o nosso principal parceiro comercial."

Nas cidades - Presidente do "think tank" Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges destaca que em aproximadamente duas décadas 80% da população chinesa deve estar morando em centros urbanos. Em 2012, o número de pessoas vivendo em cidades superou a população rural pela primeira vez na história.

Dimensão - "Uma cidade pequena nessa China urbana tem de 500 mil a 1 milhão de habitantes. É outro tipo de dimensão", diz Livio Ribeiro, pesquisador-sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Demanda - A demanda da nova classe média chinesa tem como destaque a proteína animal, setor em que o Brasil é "muito produtivo", lembra Estevão. "Nossa carne é de muito boa qualidade, muito bem recebida lá fora", diz. Ribeiro destaca que empresas brasileiras produtoras de alimentos perceberam "há algum tempo" o crescimento da demanda chinesa por proteína animal e têm se posicionado para ocupar esse nicho. Outros países com alta produtividade no setor, como Argentina, Austrália e Nova Zelândia, também são apontados pelos economistas como os principais beneficiados pelas mudanças do gigante asiático.

Cesta de produtos - A cesta de produtos que o Brasil pode oferecer, no entanto, não se limita a isso. "As importações de minério de ferro não vão minguar. A China ainda vai continuar precisando construir estradas, ampliar a infraestrutura", afirma o economista do Ibre/FGV. "Mas haverá outros vetores muito relevantes nesse país que começa a ficar mais ligado ao consumo e aos serviços."

Itens - Nessa pauta de exportação entram cosméticos e equipamentos de transporte e saúde. "O Brasil tem, por exemplo, uma tecnologia de incubadoras hospitalares muito boa, por causa dos índices de nascimento prematuro", afirma.

Salto - Nos cálculos de Ribeiro, em 2002 os chineses compravam 5% de tudo o que o Brasil exportava, número que saltou para 23% no ano passado. Mas o avanço do Brasil sobre o país asiático foi muito mais modesto: os produtos nacionais correspondiam a 0,7% das importações chinesas em 2002, contra 2,7% em 2017. "É uma relação demasiadamente assimétrica", diz.

Pauta - Além disso, a pauta de comércio entre os dois países permanece, pelo menos por enquanto, "muito concentrada". No ano passado, três produtos respondiam por 80% de tudo o que a China comprava do Brasil: soja (53%), minério de ferro (23%) e petróleo bruto (6%).

Petróleo - Pio Borges destaca justamente as exportações de petróleo como outro vetor que pode beneficiar o Brasil. Os chineses importam diariamente 8 milhões de barris de todas as partes do mundo. "A China já é o maior cliente da Petrobras ", diz ele, que também foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para Pio Borges, é factível que no médio prazo a produção diária brasileira supere os atuais 2,6 milhões de barris para algo em torno de 6 milhões.

Política ativa - Para que o Brasil diversifique essa pauta, Ribeiro sugere uma política ativa nessa direção. Ele aponta como diretriz um documento divulgado pelo governo australiano em 2012 ("Australia in the Asian century", ou "A Austrália no século asiático"). Em mais de 300 páginas, o texto sugere mudanças estruturais, como a realização de uma reforma tributária, e outras mais específicas, como a aproximação diplomática com a China e o desenvolvimento de líderes empresariais com conhecimento da região, para que a Austrália se beneficie da nova fase da economia chinesa.

Brics - Estevão, por sua vez, afirma que a Fazenda vem buscando não se aproximar só dos Estados Unidos e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas aprofundar ainda mais os já fortes laços com o Brics - grupo de emergentes que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Preocupação menor - Nesse sentido, o discurso hostil ao gigante asiático proferido pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e parte de sua equipe durante a campanha é visto com menos preocupação. Para os economistas, as oportunidades comerciais falarão mais alto do que a retórica inflamada. "É muito mais fácil ser maniqueísta, dizer que isso é bom e isso é ruim. Mas a verdade é que tudo é cinza", afirma Estevão.

Direção contrária - "Eu entendo o argumento de que não podemos vender tudo para os chineses. Mas qual a brilhante ideia na direção contrária? Não sei. Nós não estamos em uma posição confortável para recusar capital, de onde quer que ele saia", diz Ribeiro. (Valor Econômico)

 

Foto: Pixabay

 

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